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Domingo, 1 de outubro de 2000

TV é comedora de criancinhas
Divulgação
Xuxa consolidou uma forma de tratar infância como mero mercado
Luiz Carlos Merten

Xuxa & cia. encaram a criança como pequena consumidora, ou consumidora em potencial. Sainhas, vestidinhos, sapatinhos, discos, vídeos, filmes – tudo vira produto para ser adquirido. E Xuxa ainda carrega na erotização da infância, embora não chegue ao exagero de Carla Perez, que instituiu o culto do bumbum que fazia com que até menininhas de 5 anos rebolassem na boquinha da garrafa.

 

No seu belo documentário A Invenção da Infância, a gaúcha Liliana Sluzbach discute o que é ser criança, desde que o conceito foi inventado. Crianças existem desde os primórdios da humanidade, mas a infância, como idéia, é relativamente recente. Surgiu nos séculos 17 e 18, mas desde então vem crescendo, sua abrangência liga-se a outros conceitos, como família e escola, fundamentais para o funcionamento da estrutura social burguesa e da sociedade capitalista (hoje, diz-se neoliberal).

 

Liliana discute o que é ser criança e mostra que, no mundo atual, em que a globalização da informação e do consumo nivela faixas etárias, ser criança não é garantia de acesso à infância. No Brasil, o problema é agravado pelas desigualdades sociais que atiram milhares de baixinhos (e baixinhas) no mercado de trabalho.

 

A criança não é, nem deve ser, um simples organismo em mutação, não é uma quantidade de anos, uma faixa etária. A criança é algo bem mais complexo e, como tal, torna-se obrigatório discutir a produção cultural para ela. Há uma cultura da substituição aplicada à TV, que já foi chamada de babá eletrônica. Segundo a Unesco e o Ministério da Justiça, crianças brasileiras passam 28 horas semanais com televisores. Consomem tudo, de desenhos à novela. Sempre houve poucas tentativas de dar atenção a esse público que não fosse puramente comercial.

 

Programas infantis são sempre educativos. Às vezes educam bem, na maioria educam mal. Vila Sésamo, O Sítio do Pica-pau-amarelo e O Castelo Rá-Tim-Bum marcaram época e permanecem exceções. Um infantil que respeite a criança não precisa ser chato. Nem excluir a fantasia e o maravilhoso. Só não pode ser apelativo ou voltado à estimulação do consumo, mais que à inteligência.